Vida de oração
Contatos: osmar@ludovicosilva.com.br
*********
HÁ SEMPRE TENSÃO E EQUILÍBRIO entre a oração privada e a
pública, entre a vida comum na igreja e a vida interior do cristão. A ênfase e
a valorização de apenas um desses aspectos em detrimento do outro conduz,
inevitavelmente, ao empobrecimento da vida cristã. Manter a comunhão e orar com
a igreja nos ajuda a crescer na fé, na esperança e no amor, mas nada substitui
a necessidade irresistível do recolhimento para dialogar com Cristo, pessoa a
pessoa, na intimidade do coração.
Quando lemos o Evangelho, aprendemos que as duas direções
são importantes. Por um lado, a oração comum: “Também lhes digo que se dois de
vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes
será feito por meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 19). Por outro, a oração
pessoal: “Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu
Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (Mt
6, 6).
Não se trata de contradição, pelo contrário: esses dois
modos de orar são complementares. A verdadeira devoção pessoal resulta no
encontro e na comunhão, e a verdadeira devoção comunitária desperta o desejo de
criar um espaço interior e pessoal diante de Deus.
Jesus Cristo nos mostra, por exemplo, o lugar da oração
pessoal. Ficou quarenta dias no deserto em jejum e oração antes de iniciar seu
ministério. Frequentemente se retirava para a montanha ou para o jardim em
busca de um local isolado para conversar com o Pai. A oração era parte do
dia-a-dia de Jesus Cristo; seu coração cheio de amor desejava a companhia e a
intimidade do Pai. Porém também o vemos orando com seus discípulos o Pai-Nosso
e culminando com sua oração sacerdotal, conforme o registro de João 17.
Reduzimos nossa vida de oração às petições. É comum numa
reunião o dirigente perguntar: “Quais são os pedidos?”. Certamente é importante
suplicar e interceder, só que mais importante ainda é abrir um espaço em nosso
coração silencioso para acolher a misteriosa presença que vem nos visitar e
falar conosco. É a presença divina que intercede por nós com gemidos
inexprimíveis. Quando visitados pelo Espírito, deixamos de pedir e nossa oração
se move para a gratidão, a confissão e a consagração.
Devocionários
ajudam a orar, e cada cristão encontra a maneira, o local, a frequência, o
horário e a posição mais adequada para expressar seus afetos e abrir seu
coração, suas alegrias e tristezas. Muitas vezes tentamos imitar outros ou descobrir um manual que nos ensine a orar.No entanto, a oração é uma relação pessoal de amizade com Deus. Não cabe num molde para ser reproduzida. É pessoal, espontânea e transformadora. Não é uma técnica a ser desenvolvida, uma produção mental ou uma euforia religiosa; trata-se de uma experiência do coração, do cultivo de uma relação de amor.
Não oramos para liquidar problemas de forma mágica. Oração é a prática de paciência. Situações difíceis, às vezes, não se resolvem, mas quando oramos, somos transformados. Nós nos consagramos a Deus e somos santificados de modo que, em certas ocasiões, não é a circunstância que muda, mas o nosso olhar.
Como dirigir a oração àquele que conhece todos os segredos,
nos ama incondicionalmente, sabe o que se passa no mais profundo de nosso
coração? Diante do Senhor, podemos nos abrir, dizer quem realmente somos,
confessar nossos pecados e torpezas, sem máscaras, sem representações.
Orar é entrar e participar da comunhão da Trindade. A
verdadeira vida de oração é pessoal. Ela conta a história da vida, é afetiva,
toca os sentimentos, é transformadora, muda o olhar, é movida pela saudade, não
pela ansiedade. A oração é, ao mesmo tempo, uma graça de Deus a ser recebida e
uma disciplina espiritual a ser exercitada e desenvolvida.(1) Osmar Ludovico, Meditatio –
0 comments:
Postar um comentário
<< Home