05 junho 2016

O Segredo da Vida Espiritual


O autor do texto a seguir, Frei Clemente Kesselmeir, OFM nasceu em Dortmund, Alemanha em 1934, e faleceu no Rio de Janeiro em 6 de junho de 2011. Aos dez anos de idade viu sua cidade natal ser destruída na segunda guerra mundial. Aos quinze anos, em visita ao túmulo de São Francisco de Assis, de motocicleta, com seu irmão gêmeo, optou pela vida franciscana. 
   
Em outubro de 1955 chegou ao nosso país como seminarista da Província Franciscana Imaculada Conceição do Brasil (SC). Em 15 de dezembro de 1962, ordenou-se sacerdote. Seu irmão gêmeo também emigrou para o Brasil, vindo a abraçar o sacerdócio como padre secular (Pe. Henrique Kesselmeir).
  
Transferindo-se para o Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, Frei Clemente trabalhou dezoito anos na Paróquia de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, então dirigida pelos franciscanos, e veio a tornar-se um dos padres mais conhecidos e queridos da cidade. Foi também capelão do Convento das Clarissas, na Gávea. Distinguiu-se como orientador de retiros e celebrante caloroso de missas e casamentos, sendo por muitos considerado como o melhor orador sacro do Brasil em seus dias. Suas missas no Convento de Santo Antônio e no Convento das Clarissas enchiam a igreja e a capela de fiéis profundamente tocados por seu carisma.

Além de sacerdote, pintor, poeta e escritor, foi um profeta que anunciava as maravilhas de Deus e denunciava os males que se opõem ao dom da vida.  Publicou vários livros de incentivo à fé, ao otimismo, à alegria e ao amor, entre os quais o aclamado "Você Pode Viver em Plenitude" (1). Compreendia bem a importância da meditação e da contemplação para os cristãos, e costumava dizer: "antes de nos tornarmos raio temos de ser nuvem". 

No presente texto, escrito em 1997 e essencialmente dirigido aos cristãos em geral, Frei Clemente incluiu uma mensagem dirigida a seus colegas sacerdotes, exortando-os a exercer suas funções com o calor e o entusiasmo que ele mesmo soube imprimir a seu ministério.

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A filha mais nova de um empresário pediu que o pai lesse para ela todas as noites um conto de fadas. Por andar muito ocupado, teve a ideia de gravar os contos. A menina aprendeu a lidar com o gravador e tudo correu bem por algumas semanas, até que uma noite ela entregou o livro ao pai.

 Ora, querida  disse o pai  você sabe ligar tão bem o gravador.

 Sim pai, mas eu não posso sentar-me no colo do gravador.

Os encontros humanos tornam-se cada dia mais frios, distantes, mecânicos, banais.
  
O gravador é como a televisão, não tem nome, não tem rosto nem olhar, não conversa com ninguém. A televisão não nos abraça, não substitui jamais o calor humano, a intimidade, o pulsar do coração; não constrói uma ponte sobre o abismo da solidão. Nunca realiza um  verdadeiro encontro.

O mistério da pessoa é o mistério da liberdade. O mistério da liberdade é o mistério dos encontros.
  
Cada encontro é um mistério. Cada encontro é uma surpresa.

Cada encontro é providencial. Cada encontro tem um sentido.

Um dos encontros mais fascinantes acontece quando o companheiro encontra sua companheira na estrada da vida. Quando acontece esse encontro de amor,  acontece abertura, saída de si mesmo, proximidade, atenção, auto-revelação, diálogo, confiança, reciprocidade, intimidade, comunicação, comunhão.

A boca fala do transbordamento do coração. Mergulhamos no mistério do outro e nos revelamos. Desvendamos nosso nome, nossa história, nossa família, nossos sonhos, nossos sentimentos e pensamentos, nosso ideal, nossa vocação, nossos valores, nossas necessidades, nossas lutas e preocupações, nossas alegrias e angústias, nossa singularidade, o mistério de todo nosso ser.

Revelar-se significa tornar-se transparente ao Mistério do Amor, testemunhar a vida que se renova a partir do encontro.

O verdadeiro encontro entre um homem e uma mulher é o momento de todos os sonhos, de todas as esperanças, de todas as saudades. É o sabor do paraíso, é o céu caído na terra, o esplendor da primavera, a glória da vida, a festa da plenitude, a luz da gratuidade, o jardim da felicidade. É o mistério inefável da relação pessoal e profunda, íntima e intensa de dois seres que se transcendem na autodoação. Acontece um novo nascimento, uma nova realidade, uma nova aliança, uma nova existência, um novo sentido, um novo motivo pelo qual viver e lutar. Fazemos a experiência mais bela da graça que nos envolve como a música, que nos abre novos caminhos e horizontes, que nos ilumina cada dia com uma nova luz.

O que sentimos é a experiência da identidade, uma força interior imensa, uma afinidade profunda, uma vitalidade intensa, a convergência de dois ideais, as verdades mais profundas de nosso ser, que fazem de nossa existência uma transcendência. Sentimos que somos realmente únicos, inconfundíveis e irrepetíveis.

Deslumbramos que o verdadeiro encontro no amor é sagrado, é divino e portanto mais forte que a solidão e a morte.

Como expressamos nosso relacionamento de amizades?

Às vezes, basta uma troca de olhares, um olhar de admiração, de ternura, de júbilo...

Às vezes um telefonema, um diálogo, uma conversa, uma atenção...

Às vezes uma visita, uma surpresa, um beijo, um abraço, um presente, uma doação...

Os sinais e gestos valem à medida que expressam nosso amor, e intensificam nossa comunhão.

Portanto, a comunicação é chave central de nossa relação interpessoal.

Também Deus nos convida para uma experiência pessoal, para um encontro íntimo com Ele. Sem esta experiência vivencial nosso relacionamento com Ele permanece distante, formalista, artificial, mágico, supersticioso, moralista, legalista, utilitarista, teórico, racionalista, superficial.

Sem esta relação pessoal com Deus, sem esta intimidade profunda, sem este contato vital com esse Mistério fascinante de Amor, a vida religiosa e espiritual se desvaloriza como dinheiro em tempo de inflação.

De que adianta o mais belo carro na garagem sem gasolina para andar? Aqui reside a tragédia e o absurdo dos homens de Deus” vazios de Deus, sem calor humano, sem vibração, sem entusiasmo, sem paixão pela causa de Deus. Não se trata de “administrar” sacramentos, “rezar missas”, fazer pastoral para jovens, noivos, casais, famílias, doentes, pobres, recitar palavras, mesmo que sejam sagradas, repetir fórmulas tradicionais ou convencionais, se não formos testemunhas da presença viva de Deus, da presença de Cristo no meio de todos...

Se nossas celebrações não forem expressões vivas de nossa Fé, tudo não passa de um teatro, de um show religioso diante de plateias cômicas. Gestos re-presentativos viram mera representação. A chave central de nossa vida espiritual  é nossa relação pessoal.

Antes de mais nada, é preciso viver a consciência da presença de Deus dentro de nós pela fé e pelo amor.

Deus é a vida de nossa vida. Deus é o caminho de nossos caminhos. Deus é a luz de nossa consciência. Deus é a energia de nosso ser. Deus é o amor de nossos corações. Deus é a lâmpada de nossos pés. Deus é a fonte de nossas relações. Deus é o vinho de nossa sede. Deus é o pão de nossa fome. Deus é plenitude de nossa saudade. Deus é o fascínio de nossos sonhos. Deus é o centro vital de nossa pessoa.

“Se alguém me ama,
guardará a minha palavra,
meu Pai o amará
e viremos a ele,
e nele faremos a nossa morada” ( Jo 14, 13 )

A condição fundamental para sermos a morada de Deus é o Amor. Quanto mais profundo o amor, tanto mais profunda a experiência de Deus, a relação íntima com Ele.

Quanto mais o peixinho mergulha na profundeza do mar, tanto mais experimentará o oceano que o envolve, o sustenta, o penetra – como Deus, que nos é mais íntimo que nossa própria interioridade, como lembra Santo Agostinho.

Nós carregamos no coração uma primavera que ninguém poderá esmagar. Deus se comunica para permanecer conosco na intimidade do amor que é o segredo, o princípio e a base do encontro profundo e da comunicação intensa.

A única relação possível com Deus é de uma aliança mútua:
                                   do amor por parte de Deus,
                                   da resposta ao amor por parte do homem.

O alimento desta aliança é o diálogo, é a oração. O ser humano é o único ser criado para conversar com Deus, encontrando nele a plenitude da felicidade.

O mais perfeito modelo e ideal de relacionamento com Deus é Jesus. Sua comunicação com o Pai acontece num clima de infinita ternura, confiança, intimidade, comunhão.

Jesus nos revela todo o mistério sobre Deus, numa única palavra: Pai.

Também nós podemos falar com Deus não como um distante, desconhecido, estranho, isolado, mas um amigo próximo, íntimo, amado, pessoal. Nossa relação com Deus é a relação profunda de uma aliança, relação de nossa pessoa para com alguém que é pessoa em plenitude.

Numa palavra, viver é amar,
amar é orar,
orar é transformar-se e transformar o mundo.

O segredo da oração e de nossa vida é a descoberta de Deus em nós.

Só assim nossas palavras e atitudes, nossas liturgias, nossas celebrações terão sentido, porque expressam o que sentimos, acreditamos, testemunhamos com o nosso coração.

Esta é a vitória que vence o mundo; nossa fé.(1 Jo 3, 4)



(1) "Você Pode Viver em Plenitude"  Editora Vozes, 1997

Veja pela Internet:

23 dezembro 2014

A Glória de Deus em Nós

O texto a seguir, de autoria do Pe. William Meninger, OCSO,  foi apresentado como uma homilia à comunidade do Mosteiro Trapista de São Bento (Snowmass, Colorado, EUA), na missa de 12 de outubro de 2014.

Nascido e educado na área de Boston, EUA, no seio de uma família chefiada pelo pai quacre e a mãe católica, William Meninger entrou bem jovem para um seminário, de onde saiu ordenado em 1958 após oito anos de estudos. Iniciou seu trabalho como sacerdote na diocese de Yakima, no Estado de Washington, onde por seis anos deu assistência religiosa à comunidade de uma reserva indígena e a trabalhadores migrantes de origem mexicana.
Em 1963 optou pela vida monástica, juntando-se à comunidade do Mosteiro Trapista de São José em Spencer, Massachussetts, onde permaneceu por quinze anos até transferir-se para seu atual mosteiro.
Passou três anos em Israel, onde dedicou-se ao estudo das Escrituras e ao ensino no Centro de Estudos Bíblicos de Jerusalém e no Mosteiro Trapista de Latroun.
Foi no Mosteiro de Spencer, em 1974, que ele propôs à comunidade monástica a divulgação da forma de oração contemplativa apresentada no livro "A Nuvem do Não-Saber" — que logo passaria a ser difundida em todo o mundo, sob o nome de Oração Centrante, por um trio de mestres históricos dessa prática constituído por ele mesmo e por seus confrades Thomas Keating e Basil Pennington.
Autor de vários livros sobre mística e espiritualidade, o perdão e a oração, entre os quais duas obras publicadas no Brasil [1, 2], o Pe. William Meninger notabilizou-se como mestre espiritual também em retiros pregados em vários países e continentes — Inclusive no Brasil, onde esteve por duas vezes a convite do Círculo Gregório de Nissa. 

Preocupado em conservar-se em permanente contato com os cristãos contemplativos,  e mesmo com contemplativos e místicos de outras tradições, o Pe. William Meninger  mantém um site na Internet [3] e distribui a um grande número de amigos, por meio de e-mails periódicos, notícias sobre suas atividades, além de suas reflexões e homilias.

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A doutrina do pecado original, como ensinada pela Igreja Católica, tem tido maior ou menor proeminência ao longo de sua história. Antes do Século V ela não parece ter sido proeminente. Depois do Século V e dos escritos de Santo Agostinho, ela passou a ocupar um lugar mais significativo. Em nossos dias, ou pelo menos durante o tempo da minha vida, ela tem sido bastante proeminente. O seu significado sempre foi um tanto obscuro, já que se trata de um mistério. Ao mesmo tempo, precisamente porque é um mistério da fé, ela tem de ser relevante para nossas vidas.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o pecado original não é um pecado no sentido em que comumente nós entendemos essa palavra, mas um estado ou — podemos mesmo dizer —, uma matriz na qual nós nascemos e vivemos nossas vidas. Como resultado do pecado original nossa compreensão de Deus é obscurecida. Perdemos a consciência de que Deus é a fonte amorosa, compassiva, não-julgadora de nosso verdadeiro ser e a meta de nossas vidas. Nossa compreensão tradicional do pecado original também obscurece, em nossas mentes, um dos ensinamentos mais importantes, confortadores e encorajadores de nossa fé: nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus. E, embora o pecado original possa obscurecer essa realidade, jamais poderá apagá-la.

Há alguma coisa, ou algum lugar dentro de nós que pertence inteiramente a Deus. Que nunca foi poluído, desfigurado ou obscurecido pelos erros de nosso intelecto, os devaneios de nossa imaginação ou a brutalidade de nossa vontade. Ela está presente dentro de nós e, se permitirmos, lançará um facho de luz através de nossas sombras, nosso desânimo e nossas falhas, e será como uma muralha em face de nossas fraquezas, e uma inesgotável esperança que nos impulsionará para a frente apesar de nossas desventuras pessoais e das tragédias sociais, mesmo de âmbito mundial, que possam nos afetar.

Embora raramente ouçamos pregação semelhante nas manhãs de domingo, este é um ensinamento básico da revelação cristã. Esta certeza nunca faltou nos místicos ou naqueles que buscam Deus pela oração contemplativa. Juliana de Norwich afirma: "Há em nós uma parte mais elevada que nunca conheceu o pecado e nunca conhecerá”. São João da Cruz nos lembra de que a alma humana, tão rebelde como possa ser, em seu estado natural é tão perfeita como quando Deus a criou.

Não é difícil entrar em contato com esse lugar dentro de nós e com o Deus que nele habita.  O Amor, em todas as suas manifestações, nasce ali, e ali alcança a sua plenitude. É por isto que o amor une todas as coisas; como Henry Nouwen diz, "O coração de Deus, o coração de toda a criação, e os nossos próprios corações tornam-se um só no amor."

Esta não é apenas uma abstração teológica. Bem fundo em nossos corações, o Espírito Santo de Deus e nosso ser mais profundo e secreto estão em íntima união. Como Juliana de Norwich nos diz, o Espírito está mais próximo de nós do que nós de nós mesmos. Somos morada de Deus. Levamos Deus conosco em todos os eventos de nossa vida. Se dermos nosso consentimento, Deus será uma parte de todos os nossos relacionamentos. Ele transformará cada falha nossa. Ele nos diz, "Antes que você me chame eu lhe direi: aqui estou." Deus está presente não apenas em você como indivíduo mas também, quer você o reconheça ou não, em todas as outras pessoas. Eu e você somos convidados a reconhecer a glória de Deus um no outro. Ela é, como Thomas Merton diz, "como um diamante puríssimo, brilhando à luz invisível do céu. Ela está em cada pessoa, e se pudéssemos enxergá-la veríamos esses bilhões de pontos de luz juntando-se sob o brilho ofuscante de um sol que faria desaparecer inteiramente toda a escuridão e crueldade da vida".
Possa você ser feliz,
Possa você ser livre,
Posa você ser amoroso(a),
Possa você ser amado(a).

[1] "A Busca Amorosa por Deus" (livro) — Edições Bagaço, Recife, PE.
 
[2] "O Processo do Perdão" (livro) — Editora Santuário, Aparecida, SP.

[3] "Contemplative Prayer for Everyone" (site em inglês) —       Endereço:
 http://www.contemplativeprayer.net

23 fevereiro 2014

Viver o Silêncio

O texto a seguir foi extraído, com autorização, do livro "Ao Encontro de Você" (1), de Frei Angelino Caio Feitosa, OFM. O autor é um dos pioneiros do ensino organizado, para leigos, da oração contemplativa no Brasil. À época da publicação desse livro dirigia o Eremitério Santa Clara, na Comunidade Rio Doce, em Olinda - PE, onde organizou diversos grupos de contemplação. Frequentemente dirigia retiros contemplativos, não só nos Estados do Nordeste mas também no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Com a saúde debilitada, viveu seus últimos anos no Convento de São Francisco, em Salvador - BA, onde veio a falecer no dia 5 de abril de 2015. O texto abaixo exemplifica o modo simples e coloquial de ensinar adotado pelo autor, em harmonia com seu modo despojado e bondoso de ser

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"Maria conservava no coração todas essas coisas. E Jesus crescia e ficava mais forte, cheio de graça  e de sabedoria" (Lc 2, 51-52)


O poder das trevas é a força do não iluminado, do obscuro, do medo. É tudo aquilo que se opõe à ação do Espírito Santo, que retarda essa ação, que dificulta essa ação.

Quando reprimimos emoções, sentimentos, pensamentos ou qualquer coisa de nossa consciência, abrimos espaço para o poder das trevas. Tudo que sofremos com medo, dá força ao poder das trevas dentro e em torno de nós.

Esse poder das trevas aparece na Bíblia algumas vezes. Ele é muito forte na paixão de Jesus. Quando Judas, Pedro e os apóstolos caem nesse poder do medo, deixam de viver a beleza e a verdade do momento. "Se a luz que existe em você se torna escuridão"... (Mt 6,23; Lc 11,34).

Eu diria que aí há um pecado contra o Espírito Santo, porque impede a luz do Espírito Santo de introduzir-se em sua verdade. Esta é a razão de tanta gente não realizada.

Qual é a força, a arma eficiente para enfrentar este poder destruidor? A arma eficiente se chama silêncio. O silêncio é o valor insubstituível. É a matéria-prima com que o Espírito Santo quer continuar a criar você.  

Mas experimentamos dificuldades para fazer silêncio. Por que? Por causa de nossa educação. Não fomos habituados a valorizar o silêncio. Quando muito, se pedia a nós silêncio, sem percebermos o valor do silêncio para nós. Por isso, muitas vezes ficamos com ódio do silêncio, exigido de fora para dentro, sem explicação.  

Há pessoas que por medo do silêncio, por ver nele apenas nulidade, ausência de eficiência, têm raiva do silêncio, têm impulso de tagarelice, ausência de conteúdo. E a mente fica entulhada de idéias sem a luz da verdade. No fundo, a pessoa dispensa o silêncio porque tem medo. Medo de ficar a sós consigo. No entanto, esse próprio medo do silêncio, se assumido, passa a ser algo positivo. Tomar consciência deste medo já é uma pequena vitória contra o poder das trevas, já é sinal de que você dá algum valor ao silêncio, significa um pouquinho de abertura à luz. 

Os preciosos momentos dados à contemplação, subsidiados no correr do dia, apressam a diminuição das forças das trevas do seu ego, favorecendo a consolidação do seu ser. 

A força das trevas se manifesta na ansiedade pelo reconhecimento dos outros a meu respeito. Aí, direta ou indiretamente, me dedico a mostrar minhas vantagens, preocupado com que os outros se convençam que eu sou bom, sou correto, faço tudo direitinho. Essa gabolice só faz me tornar menos aceito por aqueles  que me conhecem. A força das trevas me torna ridículo. Não sou aquilo que eu desejo passar por minhas palavras. Sou o que sou, não o que eu digo que sou.

O grande fruto do silêncio é ir atenuando a agitação, a angústia de não ser amado nem aceito como sou. O silêncio vai esvaziando o meu ser em sua forma simples, natural, serena e bonita conforme Deus o inventou. Não conforme os desejos inferiores do meu ego. Vai-se adensando uma nova e estável energia, antes desconhecida. Vamos descobrindo com clareza a verdade. A verdade de nossos preconceitos, de nossas ilusões, de nossos julgamentos sobre os outros. O gosto de estar se explicando aos outros: "eu sou assim porque papai... porque mamãe...", é uma maneira de julgar os outros como responsáveis por você agir desse jeito, é uma maneira de você não se comprometer com você agora.  Jogar nos outros a lama do seu insucesso.

A facilidade de julgar os outros nos mostra a necessidade do silêncio. Indispensável para a oração contemplativa, o silêncio interior vai com jeito abrindo nossa consciência à largueza do nosso ser.

A contemplação vai nos libertando do passado e do futuro e dando relevo ao que vivo agora, ao que se passa agora comigo, privilegiando a atualidade. A mente e o coração abertos ao mundo real, tal qual é experimentado por você.

A integração vai então acontecendo não apenas dentro de você, arrumando suas diversas dimensões, mas em torno de você. Vai fazendo bem à sua família, aos filhos (que são as maiores vítimas de nossa desintegração), às crianças de nossas vizinhanças, e mais particularmente aos humildes, aos sem força, aos miúdos.

Vamos olhando o mundo com olhos novos, com olhos de criança, como se fosse a primeira vez. Coisas que já vimos tantas vezes começam a ter cintilações novas. Coisas comuns como varrer uma casa, escrever algo, um jeito novo, bem-humorado, gostoso, interessante que você vive na plenitude do seu eu agora. A naturalidade vai tomando o lugar do artificialismo, e vai nos atraindo para tudo que é experiência. A beleza das coisas, dos gestos, do dia-a-dia vão dando novo valor à vida.

Mas nada disso se realizará se não houver a suavidade do silêncio. Vamos tomando consciência de que o mais importante não é o que se faz, mas o como se faz. A alma que você coloca em coisinhas como lavar prato.

Ouvir uma pessoa, às vezes, pode ser penoso porque nós já sabemos o que ela costuma dizer, mas você para e fica interessado, vai descobrindo coisas que vão fazer bem a você, não tanto o que a pessoa diz, mas o que ela revela em seu rosto. Ouvir uma pessoa, portanto, pode se tornar uma experiência que ilumina, que nos reconduz à plena beleza.

Essas ações do eu reforçam o bem da contemplação e vão assegurando, subsidiando o trabalho do Espírito Santo feito na hora do silencioso contemplar. Expondo-se ao silêncio, você acolhe a energia que, por ele, o Espírito Santo lhe dá. É a força contra o poder das trevas, que faltou a Pedro, Judas e aos apóstolos - e que marcou profundamente três mulheres: Maria, Madalena e Maria de Cleofas. Mulheres tão diferentes no passado e tão iguais no presente, porque marcadas pelo silêncio, pela ausência de querer explicar o  inexplicável, aceitando o que experimentavam sem explicação. Esta força quer organizar e fazer você crescer, purifica sua casa interior e afasta a sombra do medo e da insegurança; alimenta a coragem, a decisão de viver o momento que passa, seja gratificante ou doloroso, deixando que a luz plena da atenção a tudo que lhe acontece invada o seu íntimo, afugentando o poder das trevas que multiplica seus julgamentos e atitudes condicionados pelo medo, pela insegurança, e transformando-as em ações plenas da sabedoria vinda de dentro do seu ser.

Em silêncio recebemos o que vem de graça do céu, em silêncio espalhamos pela terra o bem do Senhor. 
 

(1) Ao Encontro de Você - Frei Angelino Caio Feitosa, OFM - Editora Universitária da UFPe, 2001.  O autor publicou, ainda, os livros "Chão Necessário" (Meditação Cristã do Rio de Janeiro, 2002) e "Renasça pela Contemplação" (Edições Bagaço, 2006).

Informações sobre a disponibilidade de livros de Frei Angelino podem ser obtidas com Maria José Neto - tel (81) 3431-6109 / 9976-3309; e-mail: mariajneto2@hotmail.com ou com Sônia Freire - tel. (21) 2256-5822; e-mail: soniasfreire@gmail.com 

06 abril 2013

Vida de oração


O texto a seguir foi extraído do livro Contemplatio (1), do Pastor Osmar Ludovico da Silva (foto),  da Comunidade de Jesus, com autorização do autor. Osmar Ludovico é, em nosso país, um dos líderes evangélicos mais identificados com os valores e ensinamentos que constituem o rico patrimônio espiritual e cultural da tradição contemplativa cristã. Nos últimos trinta anos coordenou e orientou Comunidades de Jesus em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Curitiba. Estudou no Seminário Palavra de Vida, em Atibaia, SP, e participou de cursos com John Stott, na Inglaterra, e Hans Bürki, na Suíça. É casado com a psicóloga clínica e escritora Isabelle Ludovico, com quem atualmente reside em Cabedelo, na Paraíba, e pai de dois filhos (Priscila e Jonathan). Dedica-se no presente à direção de cursos  de espiritualidade, revisão de vida e seminários para casais, pastores e missionários no Brasil e no exterior. 
Contatos: osmar@ludovicosilva.com.br


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HÁ SEMPRE TENSÃO E EQUILÍBRIO entre a oração privada e a pública, entre a vida comum na igreja e a vida interior do cristão. A ênfase e a valorização de apenas um desses aspectos em detrimento do outro conduz, inevitavelmente, ao empobrecimento da vida cristã. Manter a comunhão e orar com a igreja nos ajuda a crescer na fé, na esperança e no amor, mas nada substitui a necessidade irresistível do recolhimento para dialogar com Cristo, pessoa a pessoa, na intimidade do coração.
Quando lemos o Evangelho, aprendemos que as duas direções são importantes. Por um lado, a oração comum: “Também lhes digo que se dois de vocês concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 19). Por outro, a oração pessoal: “Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (Mt 6, 6).

Não se trata de contradição, pelo contrário: esses dois modos de orar são complementares. A verdadeira devoção pessoal resulta no encontro e na comunhão, e a verdadeira devoção comunitária desperta o desejo de criar um espaço interior e pessoal diante de Deus.
Jesus Cristo nos mostra, por exemplo, o lugar da oração pessoal. Ficou quarenta dias no deserto em jejum e oração antes de iniciar seu ministério. Frequentemente se retirava para a montanha ou para o jardim em busca de um local isolado para conversar com o Pai. A oração era parte do dia-a-dia de Jesus Cristo; seu coração cheio de amor desejava a companhia e a intimidade do Pai. Porém também o vemos orando com seus discípulos o Pai-Nosso e culminando com sua oração sacerdotal, conforme o registro de João 17.

Reduzimos nossa vida de oração às petições. É comum numa reunião o dirigente perguntar: “Quais são os pedidos?”. Certamente é importante suplicar e interceder, só que mais importante ainda é abrir um espaço em nosso coração silencioso para acolher a misteriosa presença que vem nos visitar e falar conosco. É a presença divina que intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Quando visitados pelo Espírito, deixamos de pedir e nossa oração se move para a gratidão, a confissão e a consagração.
Devocionários ajudam  a orar, e cada cristão encontra a maneira, o local, a frequência, o horário e a posição mais adequada para expressar seus afetos e abrir seu coração, suas alegrias e tristezas. Muitas vezes tentamos imitar outros ou descobrir um manual que nos ensine a orar.

No entanto, a oração é uma relação pessoal de amizade com   Deus. Não cabe num molde para ser reproduzida. É pessoal, espontânea e transformadora. Não é uma técnica a ser desenvolvida, uma produção mental ou uma euforia religiosa; trata-se de uma experiência do coração, do cultivo de uma relação de amor.
 


Não oramos para liquidar problemas de forma mágica. Oração é a prática de paciência. Situações difíceis, às vezes, não se resolvem, mas quando oramos, somos transformados. Nós nos consagramos a Deus e somos santificados de modo que, em certas ocasiões, não é a circunstância que muda, mas o nosso olhar.
Diante do mistério e do sagrado, o cristão se expressa por meio de afetos, poesia, metáforas, doxologias. No coração do ser humano surge música para contar a Deus a própria história: as alegrias se tornam salmos de louvor e as tristezas, lamentações.

Como dirigir a oração àquele que conhece todos os segredos, nos ama incondicionalmente, sabe o que se passa no mais profundo de nosso coração? Diante do Senhor, podemos nos abrir, dizer quem realmente somos, confessar nossos pecados e torpezas, sem máscaras, sem representações.
Orar é entrar e participar da comunhão da Trindade. A verdadeira vida de oração é pessoal. Ela conta a história da vida, é afetiva, toca os sentimentos, é transformadora, muda o olhar, é movida pela saudade, não pela ansiedade. A oração é, ao mesmo tempo, uma graça de Deus a ser recebida e uma disciplina espiritual a ser exercitada e desenvolvida.

(1) Osmar Ludovico, Meditatio Editora Mundo Cristão, SP, 2007.