10 dezembro 2016

Despojamento de Poder

Basta-te minha graça, pois é na fraqueza que se revela totalmente a minha força (2 Cor 12,9)

O texto a seguir, de Dom Thomas Keating OCSO, foi publicado no número de junho de 2014 do boletim Contemplative Outreach News, e traduzido com autorização do autor para apresentação neste blog.


Dom Thomas Keating no Rio
de Janeiro (2003)
Dom Thomas Keating é um monge trapista atualmente residente no Mosteiro de St. Benedict em Snowmass, Colorado, EUA. Durante vinte anos foi Abade na Abadia St. Joseph's em Spencer, Massachussetts, pertencente à mesma ordem. Nesse período deu início, com outros monges, à divulgação, em todo o mundo, da prática contemplativa denominada Oração Centrante, inicialmente proposta no clássico de espiritualidade medieval A Nuvem do Não Saber [1]. Juntamente com seus confrades William Menninger OCSO e Basil Pennington OCSO, compõe o trio historicamente reconhecido de mestres precursores desse movimento. É diretor da organização ecumênica Contemplative Outreach, sediada nos EUA e com ramificações em inúmeros países, dedicada ao ensino da Oração Centrante e à promoção da vida contemplativa entre os cristãos. Dom Thomas Keating é considerado um dos autores espirituais mais importantes dos EUA. Esteve no Brasil em janeiro de 2003, cumprindo no Rio de Janeiro e Belo Horizonte um programa de palestras e retiros. Traduções de cinco de seus livros foram publicadas no Brasil [2, 3, 4, 5, 6].

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O despojamento de poder é nosso maior tesouro.  Embora tudo em nós queira superar essa condição, não devemos procurar fazer isto.  A graça é suficiente para nós, mas não algo que possamos compreender.  Ter muita pressa para se livrar de dificuldades é um erro, pois não sabemos como elas podem ser valiosas na perspectiva de Deus. Sem elas talvez nossa transformação nunca seja tão profunda e tão completa.  

Se tudo o mais falhar, a grande transformação se dará no processo de nossa morte, quando tudo nos será retirado.  A viagem espiritual envolve a disposição de permitir que tudo o que possuímos nos seja tirado antes que o processo da morte tenha início. Com isto adquirimos enorme valor diante de nós mesmos e dos outros, por termos nos antecipado à morte, que não é o fim mas o início da transformação completa.  Quem passou pelo nascimento já atravessou um ensaio da morte, e seu corpo está bem preparado para a translação ou transição final, como muitos dizem. Não podemos ver Deus sem passar pela morte, porque a intensidade de sua presença real nos queimaria, transformando-nos em poeira. 

Durante sua vida Jesus Cristo precisou  esconder a dignidade e o poder de sua natureza  divina.  Um milagre constante era necessário para esconder o fulgor e o poder de sua natureza interior.  A única ocasião em que ela apareceu foi na Transfiguração, quando seu semblante brilhou e suas roupas ficaram mais brancas do que a neve.  Esta foi a única ocasião em que a glória de sua natureza divina pôde transparecer.  

Cristo escolhe sempre o lugar mais baixo. O mais baixo de todos. Por quê?  Porque isto é o que Deus faz.  Ele não se fixa em ser Deus, em receber elogios e agradecimentos.  Aquilo que o interessa é o nosso consentimento ao seu amor. 

São Paulo foi transformado pela comunicação que Deus lhe fez de Si mesmo, e por isso dizia: “Prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.  Eis porque sinto alegria nas fraquezas”  (2 Cor 12, 9-10).  Esta é a disposição que favorece a transformação.  Ela não envolve grandes experiência espirituais, mas a aceitação de nossas fraquezas humanas à medida que se apresentem.  Paulo assinalou, em seguida, no mesmo texto, suas outras dificuldades, como insultos, provações, perseguições, calamidades sofridas por amor a Cristo, concluindo: “quando me sinto fraco, então é que sou forte”. Quando chegamos a compreender isto, não precisamos de mais preparação.  

Quando nos sentimos totalmente sem apoio, sem base, confusos, quando não temos lugar de pouso, e nos sentimos separados de Deus, alienados de Deus, estamos recebendo as disposições que aparecem na Noite Escura graças ao imenso amor de Deus. Este é o modo pelo qual nossa natureza humana é condicionada pouco a pouco, a um ritmo apropriado para as possibilidades, vocação, personalidade e limitações de cada um.  O processo é tão perfeito que nem poderia ser colocado em uma categoria, como se fosse uma forma especializada de psicoterapia.

Deus nos conhece profundamente e, mesmo assim, continua a nos  amar infinitamente. Sabemos, da biofísica, que enquanto nos apoia em nível fisiológico, o corpo tem de evoluir até certo nível para sustentar nossa inteligência e, ao mesmo tempo,  ser sensível às comunicações divinas.  Não estamos prontos para receber a formidável realidade de Deus sem uma preparação para a qual colaborem todos os elementos de nossa natureza humana. Ele lida com os obstáculos em nós com extraordinária gentileza, carinho, firmeza e paciência.  Se quisermos nos conhecer, devemos falar com Deus.  Ele sabe.

Finalmente, o despojamento de poder é o maior poder que existe, pois essa condição nos habilita a ser cada vez mais um canal para o poder e o amor de Deus –  uma vez que o projeto que Ele acalenta para nós não tem propriamente em vista nosso engrandecimento ou perfeição. 

O que desejamos realmente ser a esta altura de nossa vida e viagem espiritual?  A nossa meta é nos tornarmos santos?  O problema com  o desejo de santidade é que essa meta não é suficiente. Estaríamos optando por uma identidade de segunda mão.  Suponhamos que você seja do Oriente: você desejará o Nirvana, a iluminação ou a grande sabedoria de um Guru. Mas não importa como você vê a meta: é a Noite Escura que é transformadora, porque é nela que nos percebemos despojados de poder.  Com o tempo nos sentiremos contentes com nossas fraquezas e felizes por sermos totalmente dependentes de Deus. 

Neste ponto estaremos entrando no primeiro passo dos AA (Alcoólicos Anônimos) – que é, possivelmente, a mais brilhante sinopse da viagem espiritual cristã existente.  Qual é o primeiro passo? "Tomamos consciência de que nossa vida (qualquer que seja a adicção que nos aflige) tornou-se ingovernável". Quer dizer: não podemos fazer nada com ela. Esta é a disposição perfeita para a transformação. As Noites Escuras, nos conduzem até esse ponto; esta é a sua função. Embora sintamos algum desconforto, os inconvenientes experimentados são menores do que aqueles associados a alguma forma de adicção. Neste mergulho no abismo da bondade de Deus nossa única possessão é Sua infinita misericórdia.  De que mais poderíamos precisar? Nada existe de maior.

Eis a minha base escritural: Em Mateus 10, 39 as seguintes palavras de Jesus são referidas: "Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontra-la-á". Eu interpreto esse versículo assim: "Aquele que tentar alcançar todas as coisas em que seu falso ser está interessado, atrairá para si a ruína. Mas aquele que se reduzir a nada por minha causa, descobrirá quem ele ou ela realmente é". E quem é realmente ele ou ela? Tudo. O "nada" acima referido não significa propriamente nada, mas "nenhuma coisa", nenhuma identidade fora de Deus. Ao tornar-se "nenhum objeto em particular," você se torna aquilo que Deus é – nenhum objeto em particular, mas tudo. Esta é uma atitude totalmente não possessiva em relação a si próprio. 

Jesus ensinou que quem quiser ser seus discípulo, precisa "negar a si mesmo" – isto é, negar "seu ser mais íntimo". Isto é algo mais crucial do que as outras coisas que Ele nos convida a abandonar.  Qualquer identidade que seja, exceto Deus, não é real. O processo de transformação nos conduz a isto: não termos nenhuma identidade, ou termos uma identidade que na realidade não conhecemos, mas esperamos que seja aquela que Deus tem em vista para nós. Portanto, desejar ser qualquer coisa menos que Deus não é humildade, mas falta de confiança na generosidade de Deus, que na verdade deseja nos dar não apenas todas as coisas, mas o Seu próprio Ser.


Tradução de Maria Antonietta Garcia de Souza
Revisão e copidesque de Sérgio de Morais




[1] A Nuvem do Não Saber (autor anônimo) – Paulus Editora (1987) e Editora Vozes (2008)

[2] Intimidade com Deus (Thomas Keating) – Paulus Editora, 1999

[3] Mente Aberta, Coração Aberto – A Dimensão Contemplativa do Evangelho (Thomas Keating) – Edições Loyola, 2005

[4] O Mistério de Cristo (Thomas Keating) – Edições Loyola, 2005

[5] Convite ao Amor (Thomas Keating) – Edições Loyola, 2005

[6] A Condição Humana (Thomas Keating) – Editora Santuário, 2006


05 junho 2016

O Segredo da Vida Espiritual


O autor do texto a seguir, Frei Clemente Kesselmeir, OFM nasceu em Dortmund, Alemanha em 1934, e faleceu no Rio de Janeiro em 6 de junho de 2011. Aos dez anos de idade viu sua cidade natal ser destruída na segunda guerra mundial. Aos quinze anos, em visita ao túmulo de São Francisco de Assis, de motocicleta, com seu irmão gêmeo, optou pela vida franciscana. 
   
Em outubro de 1955 chegou ao nosso país como seminarista da Província Franciscana Imaculada Conceição do Brasil (SC). Em 15 de dezembro de 1962, ordenou-se sacerdote. Seu irmão gêmeo também emigrou para o Brasil, vindo a abraçar o sacerdócio como padre secular (Pe. Henrique Kesselmeir).
  
Transferindo-se para o Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, Frei Clemente trabalhou dezoito anos na Paróquia de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, então dirigida pelos franciscanos, e veio a tornar-se um dos padres mais conhecidos e queridos da cidade. Foi também capelão do Convento das Clarissas, na Gávea. Distinguiu-se como orientador de retiros e celebrante caloroso de missas e casamentos, sendo por muitos considerado como o melhor orador sacro do Brasil em seus dias. Suas missas no Convento de Santo Antônio e no Convento das Clarissas enchiam a igreja e a capela de fiéis profundamente tocados por seu carisma.

Além de sacerdote, pintor, poeta e escritor, foi um profeta que anunciava as maravilhas de Deus e denunciava os males que se opõem ao dom da vida.  Publicou vários livros de incentivo à fé, ao otimismo, à alegria e ao amor, entre os quais o aclamado "Você Pode Viver em Plenitude" (1). Compreendia bem a importância da meditação e da contemplação para os cristãos, e costumava dizer: "antes de nos tornarmos raio temos de ser nuvem". 

No presente texto, escrito em 1997 e essencialmente dirigido aos cristãos em geral, Frei Clemente incluiu uma mensagem dirigida a seus colegas sacerdotes, exortando-os a exercer suas funções com o calor e o entusiasmo que ele mesmo soube imprimir a seu ministério.

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A filha mais nova de um empresário pediu que o pai lesse para ela todas as noites um conto de fadas. Por andar muito ocupado, teve a ideia de gravar os contos. A menina aprendeu a lidar com o gravador e tudo correu bem por algumas semanas, até que uma noite ela entregou o livro ao pai.

 Ora, querida  disse o pai  você sabe ligar tão bem o gravador.

 Sim pai, mas eu não posso sentar-me no colo do gravador.

Os encontros humanos tornam-se cada dia mais frios, distantes, mecânicos, banais.
  
O gravador é como a televisão, não tem nome, não tem rosto nem olhar, não conversa com ninguém. A televisão não nos abraça, não substitui jamais o calor humano, a intimidade, o pulsar do coração; não constrói uma ponte sobre o abismo da solidão. Nunca realiza um  verdadeiro encontro.

O mistério da pessoa é o mistério da liberdade. O mistério da liberdade é o mistério dos encontros.
  
Cada encontro é um mistério. Cada encontro é uma surpresa.

Cada encontro é providencial. Cada encontro tem um sentido.

Um dos encontros mais fascinantes acontece quando o companheiro encontra sua companheira na estrada da vida. Quando acontece esse encontro de amor,  acontece abertura, saída de si mesmo, proximidade, atenção, auto-revelação, diálogo, confiança, reciprocidade, intimidade, comunicação, comunhão.

A boca fala do transbordamento do coração. Mergulhamos no mistério do outro e nos revelamos. Desvendamos nosso nome, nossa história, nossa família, nossos sonhos, nossos sentimentos e pensamentos, nosso ideal, nossa vocação, nossos valores, nossas necessidades, nossas lutas e preocupações, nossas alegrias e angústias, nossa singularidade, o mistério de todo nosso ser.

Revelar-se significa tornar-se transparente ao Mistério do Amor, testemunhar a vida que se renova a partir do encontro.

O verdadeiro encontro entre um homem e uma mulher é o momento de todos os sonhos, de todas as esperanças, de todas as saudades. É o sabor do paraíso, é o céu caído na terra, o esplendor da primavera, a glória da vida, a festa da plenitude, a luz da gratuidade, o jardim da felicidade. É o mistério inefável da relação pessoal e profunda, íntima e intensa de dois seres que se transcendem na autodoação. Acontece um novo nascimento, uma nova realidade, uma nova aliança, uma nova existência, um novo sentido, um novo motivo pelo qual viver e lutar. Fazemos a experiência mais bela da graça que nos envolve como a música, que nos abre novos caminhos e horizontes, que nos ilumina cada dia com uma nova luz.

O que sentimos é a experiência da identidade, uma força interior imensa, uma afinidade profunda, uma vitalidade intensa, a convergência de dois ideais, as verdades mais profundas de nosso ser, que fazem de nossa existência uma transcendência. Sentimos que somos realmente únicos, inconfundíveis e irrepetíveis.

Deslumbramos que o verdadeiro encontro no amor é sagrado, é divino e portanto mais forte que a solidão e a morte.

Como expressamos nosso relacionamento de amizades?

Às vezes, basta uma troca de olhares, um olhar de admiração, de ternura, de júbilo...

Às vezes um telefonema, um diálogo, uma conversa, uma atenção...

Às vezes uma visita, uma surpresa, um beijo, um abraço, um presente, uma doação...

Os sinais e gestos valem à medida que expressam nosso amor, e intensificam nossa comunhão.

Portanto, a comunicação é chave central de nossa relação interpessoal.

Também Deus nos convida para uma experiência pessoal, para um encontro íntimo com Ele. Sem esta experiência vivencial nosso relacionamento com Ele permanece distante, formalista, artificial, mágico, supersticioso, moralista, legalista, utilitarista, teórico, racionalista, superficial.

Sem esta relação pessoal com Deus, sem esta intimidade profunda, sem este contato vital com esse Mistério fascinante de Amor, a vida religiosa e espiritual se desvaloriza como dinheiro em tempo de inflação.

De que adianta o mais belo carro na garagem sem gasolina para andar? Aqui reside a tragédia e o absurdo dos homens de Deus” vazios de Deus, sem calor humano, sem vibração, sem entusiasmo, sem paixão pela causa de Deus. Não se trata de “administrar” sacramentos, “rezar missas”, fazer pastoral para jovens, noivos, casais, famílias, doentes, pobres, recitar palavras, mesmo que sejam sagradas, repetir fórmulas tradicionais ou convencionais, se não formos testemunhas da presença viva de Deus, da presença de Cristo no meio de todos...

Se nossas celebrações não forem expressões vivas de nossa Fé, tudo não passa de um teatro, de um show religioso diante de plateias cômicas. Gestos re-presentativos viram mera representação. A chave central de nossa vida espiritual  é nossa relação pessoal.

Antes de mais nada, é preciso viver a consciência da presença de Deus dentro de nós pela fé e pelo amor.

Deus é a vida de nossa vida. Deus é o caminho de nossos caminhos. Deus é a luz de nossa consciência. Deus é a energia de nosso ser. Deus é o amor de nossos corações. Deus é a lâmpada de nossos pés. Deus é a fonte de nossas relações. Deus é o vinho de nossa sede. Deus é o pão de nossa fome. Deus é plenitude de nossa saudade. Deus é o fascínio de nossos sonhos. Deus é o centro vital de nossa pessoa.

“Se alguém me ama,
guardará a minha palavra,
meu Pai o amará
e viremos a ele,
e nele faremos a nossa morada” ( Jo 14, 13 )

A condição fundamental para sermos a morada de Deus é o Amor. Quanto mais profundo o amor, tanto mais profunda a experiência de Deus, a relação íntima com Ele.

Quanto mais o peixinho mergulha na profundeza do mar, tanto mais experimentará o oceano que o envolve, o sustenta, o penetra – como Deus, que nos é mais íntimo que nossa própria interioridade, como lembra Santo Agostinho.

Nós carregamos no coração uma primavera que ninguém poderá esmagar. Deus se comunica para permanecer conosco na intimidade do amor que é o segredo, o princípio e a base do encontro profundo e da comunicação intensa.

A única relação possível com Deus é de uma aliança mútua:
                                   do amor por parte de Deus,
                                   da resposta ao amor por parte do homem.

O alimento desta aliança é o diálogo, é a oração. O ser humano é o único ser criado para conversar com Deus, encontrando nele a plenitude da felicidade.

O mais perfeito modelo e ideal de relacionamento com Deus é Jesus. Sua comunicação com o Pai acontece num clima de infinita ternura, confiança, intimidade, comunhão.

Jesus nos revela todo o mistério sobre Deus, numa única palavra: Pai.

Também nós podemos falar com Deus não como um distante, desconhecido, estranho, isolado, mas um amigo próximo, íntimo, amado, pessoal. Nossa relação com Deus é a relação profunda de uma aliança, relação de nossa pessoa para com alguém que é pessoa em plenitude.

Numa palavra, viver é amar,
amar é orar,
orar é transformar-se e transformar o mundo.

O segredo da oração e de nossa vida é a descoberta de Deus em nós.

Só assim nossas palavras e atitudes, nossas liturgias, nossas celebrações terão sentido, porque expressam o que sentimos, acreditamos, testemunhamos com o nosso coração.

Esta é a vitória que vence o mundo; nossa fé.(1 Jo 3, 4)



(1) "Você Pode Viver em Plenitude"  Editora Vozes, 1997

Veja pela Internet:

23 dezembro 2014

A Glória de Deus em Nós

O texto a seguir, de autoria do Pe. William Meninger, OCSO,  foi apresentado como uma homilia à comunidade do Mosteiro Trapista de São Bento (Snowmass, Colorado, EUA), na missa de 12 de outubro de 2014.

Nascido e educado na área de Boston, EUA, no seio de uma família chefiada pelo pai quacre e a mãe católica, William Meninger entrou bem jovem para um seminário, de onde saiu ordenado em 1958 após oito anos de estudos. Iniciou seu trabalho como sacerdote na diocese de Yakima, no Estado de Washington, onde por seis anos deu assistência religiosa à comunidade de uma reserva indígena e a trabalhadores migrantes de origem mexicana.
Em 1963 optou pela vida monástica, juntando-se à comunidade do Mosteiro Trapista de São José em Spencer, Massachussetts, onde permaneceu por quinze anos até transferir-se para seu atual mosteiro.
Passou três anos em Israel, onde dedicou-se ao estudo das Escrituras e ao ensino no Centro de Estudos Bíblicos de Jerusalém e no Mosteiro Trapista de Latroun.
Foi no Mosteiro de Spencer, em 1974, que ele propôs à comunidade monástica a divulgação da forma de oração contemplativa apresentada no livro "A Nuvem do Não-Saber" — que logo passaria a ser difundida em todo o mundo, sob o nome de Oração Centrante, por um trio de mestres históricos dessa prática constituído por ele mesmo e por seus confrades Thomas Keating e Basil Pennington.
Autor de vários livros sobre mística e espiritualidade, o perdão e a oração, entre os quais duas obras publicadas no Brasil [1, 2], o Pe. William Meninger notabilizou-se como mestre espiritual também em retiros pregados em vários países e continentes — Inclusive no Brasil, onde esteve por duas vezes a convite do Círculo Gregório de Nissa. 

Preocupado em conservar-se em permanente contato com os cristãos contemplativos,  e mesmo com contemplativos e místicos de outras tradições, o Pe. William Meninger  mantém um site na Internet [3] e distribui a um grande número de amigos, por meio de e-mails periódicos, notícias sobre suas atividades, além de suas reflexões e homilias.

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A doutrina do pecado original, como ensinada pela Igreja Católica, tem tido maior ou menor proeminência ao longo de sua história. Antes do Século V ela não parece ter sido proeminente. Depois do Século V e dos escritos de Santo Agostinho, ela passou a ocupar um lugar mais significativo. Em nossos dias, ou pelo menos durante o tempo da minha vida, ela tem sido bastante proeminente. O seu significado sempre foi um tanto obscuro, já que se trata de um mistério. Ao mesmo tempo, precisamente porque é um mistério da fé, ela tem de ser relevante para nossas vidas.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que o pecado original não é um pecado no sentido em que comumente nós entendemos essa palavra, mas um estado ou — podemos mesmo dizer —, uma matriz na qual nós nascemos e vivemos nossas vidas. Como resultado do pecado original nossa compreensão de Deus é obscurecida. Perdemos a consciência de que Deus é a fonte amorosa, compassiva, não-julgadora de nosso verdadeiro ser e a meta de nossas vidas. Nossa compreensão tradicional do pecado original também obscurece, em nossas mentes, um dos ensinamentos mais importantes, confortadores e encorajadores de nossa fé: nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus. E, embora o pecado original possa obscurecer essa realidade, jamais poderá apagá-la.

Há alguma coisa, ou algum lugar dentro de nós que pertence inteiramente a Deus. Que nunca foi poluído, desfigurado ou obscurecido pelos erros de nosso intelecto, os devaneios de nossa imaginação ou a brutalidade de nossa vontade. Ela está presente dentro de nós e, se permitirmos, lançará um facho de luz através de nossas sombras, nosso desânimo e nossas falhas, e será como uma muralha em face de nossas fraquezas, e uma inesgotável esperança que nos impulsionará para a frente apesar de nossas desventuras pessoais e das tragédias sociais, mesmo de âmbito mundial, que possam nos afetar.

Embora raramente ouçamos pregação semelhante nas manhãs de domingo, este é um ensinamento básico da revelação cristã. Esta certeza nunca faltou nos místicos ou naqueles que buscam Deus pela oração contemplativa. Juliana de Norwich afirma: "Há em nós uma parte mais elevada que nunca conheceu o pecado e nunca conhecerá”. São João da Cruz nos lembra de que a alma humana, tão rebelde como possa ser, em seu estado natural é tão perfeita como quando Deus a criou.

Não é difícil entrar em contato com esse lugar dentro de nós e com o Deus que nele habita.  O Amor, em todas as suas manifestações, nasce ali, e ali alcança a sua plenitude. É por isto que o amor une todas as coisas; como Henry Nouwen diz, "O coração de Deus, o coração de toda a criação, e os nossos próprios corações tornam-se um só no amor."

Esta não é apenas uma abstração teológica. Bem fundo em nossos corações, o Espírito Santo de Deus e nosso ser mais profundo e secreto estão em íntima união. Como Juliana de Norwich nos diz, o Espírito está mais próximo de nós do que nós de nós mesmos. Somos morada de Deus. Levamos Deus conosco em todos os eventos de nossa vida. Se dermos nosso consentimento, Deus será uma parte de todos os nossos relacionamentos. Ele transformará cada falha nossa. Ele nos diz, "Antes que você me chame eu lhe direi: aqui estou." Deus está presente não apenas em você como indivíduo mas também, quer você o reconheça ou não, em todas as outras pessoas. Eu e você somos convidados a reconhecer a glória de Deus um no outro. Ela é, como Thomas Merton diz, "como um diamante puríssimo, brilhando à luz invisível do céu. Ela está em cada pessoa, e se pudéssemos enxergá-la veríamos esses bilhões de pontos de luz juntando-se sob o brilho ofuscante de um sol que faria desaparecer inteiramente toda a escuridão e crueldade da vida".
Possa você ser feliz,
Possa você ser livre,
Posa você ser amoroso(a),
Possa você ser amado(a).

[1] "A Busca Amorosa por Deus" (livro) — Edições Bagaço, Recife, PE.
 
[2] "O Processo do Perdão" (livro) — Editora Santuário, Aparecida, SP.

[3] "Contemplative Prayer for Everyone" (site em inglês) —       Endereço:
 http://www.contemplativeprayer.net

23 fevereiro 2014

Viver o Silêncio

O texto a seguir foi extraído, com autorização, do livro "Ao Encontro de Você" (1), de Frei Angelino Caio Feitosa, OFM. O autor é um dos pioneiros do ensino organizado, para leigos, da oração contemplativa no Brasil. À época da publicação desse livro dirigia o Eremitério Santa Clara, na Comunidade Rio Doce, em Olinda - PE, onde organizou diversos grupos de contemplação. Frequentemente dirigia retiros contemplativos, não só nos Estados do Nordeste mas também no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Com a saúde debilitada, viveu seus últimos anos no Convento de São Francisco, em Salvador - BA, onde veio a falecer no dia 5 de abril de 2015. O texto abaixo exemplifica o modo simples e coloquial de ensinar adotado pelo autor, em harmonia com seu modo despojado e bondoso de ser

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"Maria conservava no coração todas essas coisas. E Jesus crescia e ficava mais forte, cheio de graça  e de sabedoria" (Lc 2, 51-52)


O poder das trevas é a força do não iluminado, do obscuro, do medo. É tudo aquilo que se opõe à ação do Espírito Santo, que retarda essa ação, que dificulta essa ação.

Quando reprimimos emoções, sentimentos, pensamentos ou qualquer coisa de nossa consciência, abrimos espaço para o poder das trevas. Tudo que sofremos com medo, dá força ao poder das trevas dentro e em torno de nós.

Esse poder das trevas aparece na Bíblia algumas vezes. Ele é muito forte na paixão de Jesus. Quando Judas, Pedro e os apóstolos caem nesse poder do medo, deixam de viver a beleza e a verdade do momento. "Se a luz que existe em você se torna escuridão"... (Mt 6,23; Lc 11,34).

Eu diria que aí há um pecado contra o Espírito Santo, porque impede a luz do Espírito Santo de introduzir-se em sua verdade. Esta é a razão de tanta gente não realizada.

Qual é a força, a arma eficiente para enfrentar este poder destruidor? A arma eficiente se chama silêncio. O silêncio é o valor insubstituível. É a matéria-prima com que o Espírito Santo quer continuar a criar você.  

Mas experimentamos dificuldades para fazer silêncio. Por que? Por causa de nossa educação. Não fomos habituados a valorizar o silêncio. Quando muito, se pedia a nós silêncio, sem percebermos o valor do silêncio para nós. Por isso, muitas vezes ficamos com ódio do silêncio, exigido de fora para dentro, sem explicação.  

Há pessoas que por medo do silêncio, por ver nele apenas nulidade, ausência de eficiência, têm raiva do silêncio, têm impulso de tagarelice, ausência de conteúdo. E a mente fica entulhada de idéias sem a luz da verdade. No fundo, a pessoa dispensa o silêncio porque tem medo. Medo de ficar a sós consigo. No entanto, esse próprio medo do silêncio, se assumido, passa a ser algo positivo. Tomar consciência deste medo já é uma pequena vitória contra o poder das trevas, já é sinal de que você dá algum valor ao silêncio, significa um pouquinho de abertura à luz. 

Os preciosos momentos dados à contemplação, subsidiados no correr do dia, apressam a diminuição das forças das trevas do seu ego, favorecendo a consolidação do seu ser. 

A força das trevas se manifesta na ansiedade pelo reconhecimento dos outros a meu respeito. Aí, direta ou indiretamente, me dedico a mostrar minhas vantagens, preocupado com que os outros se convençam que eu sou bom, sou correto, faço tudo direitinho. Essa gabolice só faz me tornar menos aceito por aqueles  que me conhecem. A força das trevas me torna ridículo. Não sou aquilo que eu desejo passar por minhas palavras. Sou o que sou, não o que eu digo que sou.

O grande fruto do silêncio é ir atenuando a agitação, a angústia de não ser amado nem aceito como sou. O silêncio vai esvaziando o meu ser em sua forma simples, natural, serena e bonita conforme Deus o inventou. Não conforme os desejos inferiores do meu ego. Vai-se adensando uma nova e estável energia, antes desconhecida. Vamos descobrindo com clareza a verdade. A verdade de nossos preconceitos, de nossas ilusões, de nossos julgamentos sobre os outros. O gosto de estar se explicando aos outros: "eu sou assim porque papai... porque mamãe...", é uma maneira de julgar os outros como responsáveis por você agir desse jeito, é uma maneira de você não se comprometer com você agora.  Jogar nos outros a lama do seu insucesso.

A facilidade de julgar os outros nos mostra a necessidade do silêncio. Indispensável para a oração contemplativa, o silêncio interior vai com jeito abrindo nossa consciência à largueza do nosso ser.

A contemplação vai nos libertando do passado e do futuro e dando relevo ao que vivo agora, ao que se passa agora comigo, privilegiando a atualidade. A mente e o coração abertos ao mundo real, tal qual é experimentado por você.

A integração vai então acontecendo não apenas dentro de você, arrumando suas diversas dimensões, mas em torno de você. Vai fazendo bem à sua família, aos filhos (que são as maiores vítimas de nossa desintegração), às crianças de nossas vizinhanças, e mais particularmente aos humildes, aos sem força, aos miúdos.

Vamos olhando o mundo com olhos novos, com olhos de criança, como se fosse a primeira vez. Coisas que já vimos tantas vezes começam a ter cintilações novas. Coisas comuns como varrer uma casa, escrever algo, um jeito novo, bem-humorado, gostoso, interessante que você vive na plenitude do seu eu agora. A naturalidade vai tomando o lugar do artificialismo, e vai nos atraindo para tudo que é experiência. A beleza das coisas, dos gestos, do dia-a-dia vão dando novo valor à vida.

Mas nada disso se realizará se não houver a suavidade do silêncio. Vamos tomando consciência de que o mais importante não é o que se faz, mas o como se faz. A alma que você coloca em coisinhas como lavar prato.

Ouvir uma pessoa, às vezes, pode ser penoso porque nós já sabemos o que ela costuma dizer, mas você para e fica interessado, vai descobrindo coisas que vão fazer bem a você, não tanto o que a pessoa diz, mas o que ela revela em seu rosto. Ouvir uma pessoa, portanto, pode se tornar uma experiência que ilumina, que nos reconduz à plena beleza.

Essas ações do eu reforçam o bem da contemplação e vão assegurando, subsidiando o trabalho do Espírito Santo feito na hora do silencioso contemplar. Expondo-se ao silêncio, você acolhe a energia que, por ele, o Espírito Santo lhe dá. É a força contra o poder das trevas, que faltou a Pedro, Judas e aos apóstolos - e que marcou profundamente três mulheres: Maria, Madalena e Maria de Cleofas. Mulheres tão diferentes no passado e tão iguais no presente, porque marcadas pelo silêncio, pela ausência de querer explicar o  inexplicável, aceitando o que experimentavam sem explicação. Esta força quer organizar e fazer você crescer, purifica sua casa interior e afasta a sombra do medo e da insegurança; alimenta a coragem, a decisão de viver o momento que passa, seja gratificante ou doloroso, deixando que a luz plena da atenção a tudo que lhe acontece invada o seu íntimo, afugentando o poder das trevas que multiplica seus julgamentos e atitudes condicionados pelo medo, pela insegurança, e transformando-as em ações plenas da sabedoria vinda de dentro do seu ser.

Em silêncio recebemos o que vem de graça do céu, em silêncio espalhamos pela terra o bem do Senhor. 
 

(1) Ao Encontro de Você - Frei Angelino Caio Feitosa, OFM - Editora Universitária da UFPe, 2001.  O autor publicou, ainda, os livros "Chão Necessário" (Meditação Cristã do Rio de Janeiro, 2002) e "Renasça pela Contemplação" (Edições Bagaço, 2006).

Informações sobre a disponibilidade de livros de Frei Angelino podem ser obtidas com Maria José Neto - tel (81) 3431-6109 / 9976-3309; e-mail: mariajneto2@hotmail.com ou com Sônia Freire - tel. (21) 2256-5822; e-mail: soniasfreire@gmail.com